- Sabes... Estão sempre a acontecer mudanças, não existe nada completamente igual em todos os momentos, até um quadro que esteja sempre parado ganha pó e fica diferente. - disse ela tem tom pensativo e distraido.
- Ele com ar admirado responde: E lembras-te disso agora assim de repente porquê?
- Porque hoje, quando sai do meu apartamento no quarto andar olho ao longo das escadas que tenho de descer e subir todos os dias e deparo-me com elas cheias de coisas; mantas, almofadas, bancos... Desci as escadas e, já cá em baixo na entrada encontro uma vizinha e pergunto o que se passa.
- E então? - disse ele com a curiosidade à vista.
- Ela disse-me que as vizinhas do 3º andar como estavam sempre a discutir uma delas vai-se mudar para outro sitio.
- Ele: Pois, se não se davam bem é melhor assim.
- Ela: Eu sei mas o que mais me surpreende é que elas têm já uns 70 ou 80 anos e são irmãs. Sei lá, fiquei um pouco chocada.
- Ele: Não te preocupes, vais ver que assim foi melhor para elas.
- Ela: É, talvez mas vou sentir falta de ouvir o barulho das discussões delas, o próprio barulho que elas faziam e eu ouvia no meu quarto tornou-se um hábito e quase uma companhia. Não por as gostar de ouvir a discutir não gosto de ouvir discussões mas sim o próprio barulho. Agora vai tornar-se tudo mais silencioso.
Ele- Tu habituas-te.
Ela- É, eu sei. O mal das pessoas é habituarem-se facilmente às coisas ou pessoas e depois quando as deixam de ter fica um grande vazio.
Ele- Vá, não penses mais nisso. Vamos comer um gelado.
(...)